Como fiquei a conhecer o trabalho das fotógrafas Diane Arbus e Nan Goldin, e do meu amigo (na altura um total desconhecido), Vítor Fernandes / Natasha Semmynova

Estava a tirar o curso profissional de fotografia à noite no IPF – Instituto Português de Fotografia. Tinha uma disciplina que se chamava Projecto pessoal e a professora era a Rita Castro Neves. Confesso que gostava bastante dela, de toda a cultura que tinha e transmitia, bem como a maneira muito direta e pragmática de avaliar o nosso trabalho.

Um dos projectos fotográficos que tínhamos de desenvolver, tinha como tema IDENTIDADES.

Terminei a aula e fiquei à conversa com alguns colegas a discutir ideias para este projecto. A Anabela, que trabalhava na recepção e com quem me dava bem, disse:

E se fizesses sobre uma Drag Queen muito conhecida da noite do Porto, a Natasha Semmynova?

Achei a ideia bastante interessante, ia ao encontro do tema do projecto e pensei logo em fazer uma reportagem documental que desmistificasse um pouco a ideia de uma Drag Queen, isto porque eu própria não tinha a mais pálida ideia do que era uma Drag Queen. Então pensei: se é interessante para mim, também será interessante para outras pessoas.
Não queria formar opiniões, mas queria que as pessoas pudessem ter uma ideia mais informada. Por isso, decidi acompanhar e fotografar 24 horas da vida do Vítor. Foi este projecto que acabaria por me formar enquanto fotógrafa documental, mas isso falaremos mais à frente.
Cheguei a casa, fui pesquisar e logo encontrei um email. Escrevi a falar da minha ideia e recebi resposta quase imediata. Marcámos um café. Mal nos conhecemos, ele disse:

Carlota, não tenho problema nenhum em fazer o projecto contigo, mas tenho de te dizer que também fui abordado por outro colega teu do IPF que quer fazer um trabalho sobre Drag Queens. Ele chama-se Nelson.

Assim de repente, fiquei logo gelada. Estava tão animada com o projecto… enquanto dava um gole no meu café amargo ia pensando: (não tenho nenhum Nelson na minha turma, deverá ser de outra turma). Virei-me para o Vítor e disse:

Vítor, se não te importares de teres de aturar dois fotógrafos durante uma série de tempo, por mim, até acho interessante. Fiquei curiosa para perceber como será a minha abordagem e a do Nelson.

Falamos bastante, o Vítor explicou-me o significado de Drag Queen, o que ele fazia, como se sentia, como eram os dias dele. Fomos conversando, expliquei a minha ideia e decidimos então que o iria retratar em várias situações do dia-a-dia: de dia como Vítor e à noite como Natasha Semmynova.

No dia a seguir no IPF, tratei de descobrir quem era o Nelson e fui falar com ele. Falamos sobre termos a mesma ideia e chegámos à conclusão de que iríamos seguir caminhos muito diferentes: ele ia fotografar Drag Queens em geral, só se iria focar no Show e na persona; eu iriar ter uma abordagem mais documental, mostrando o lado do homem e o lado do Drag Queen.

Estava super entusiasmada. Já tinha tudo preparado para apresentar à Rita na aula. Quando chegou a minha vez de apresentar o projecto, a Rita achou a ideia interessante e perguntou:

Em que fotógrafo ou fotógrafos te inspiraste para este projecto?

Fiquei sem saber o que dizer… não me tinha inspirado em ninguém.

Rita, foi a Anabela da secretaria que me deu a ideia e acho que se encaixa no tema.

A Rita respondeu que sim, que se encaixava perfeitamente, mas que eu deveria fazer um estudo fotográfico, descobrir fotógrafos que abordaram o mesmo tema, e perceber como fotografaram. Disse-me:

Carlota, todos os projectos que desenvolvemos devem ser inspirados. Deves sempre trazer uma proposta de projecto com inspirações.

Na altura, achei aquilo uma chatice. Ter agora de ir pesquisar trabalhos de outros quando já tinha a ideia e o fio condutor… Fui pesquisar e descobri duas fotógrafas que tinham um trabalho fotográfico dentro do registo que eu procurava. Não explorei muito, só queria ter nomes para poder dar à Rita e fazer o meu projeto.

Hoje, anos mais tarde, percebo e agradeço esta metodologia. É realmente é muito importante abrirmos horizontes, conhecer o trabalho de outros fotógrafos, as suas abordagens. Há tanta coisa boa para vermos, aprendermos e com a qual nos identificarmos.

Relativamente ao projecto fotográfico IDENTIDADES, correu muito bem. O Vítor foi super prestável. Fotografámos o dia-a-dia dele: a estudar, a andar de transportes públicos, a ir para o Pride, a discoteca onde actuava. Fotografei vários dias o processo da maquilhagem. Achava aquilo fascinante: as horas que ele demorava e o cuidado que tinha ao transformar-se.

Sentia-me bem a fotografar, sentia que as coisas estavam a correr bem, cada disparo era rico em conteúdo. Situação que se veio a confirmar nas aulas com a Rita, na apresentação das provas de contacto:

Carlota, muito bem. Estas fotografias estão muito boas, estás a trabalhar muito bem com o espelho… vais no bom caminho.

Bem, fiquei logo super feliz. Realmente, aquilo que estava a sentir enquanto fotografava estava a reflectir-se nas imagens. Fiquei com o ego lá em cima… situação totalmente diferente no projecto seguinte que tive com a Rita, mas esse fica para outra história.

Voltando ao Vitor e à importância dele na minha formação enquanto fotógrafa: este foi o meu projecto “mais a sério”, mais aprofundado, um projecto fotográfico documental, um projecto que falava, que contava a história de alguém através da imagem. As pessoas poderiam ver e formar uma opinião.

Descobri que isto era o que eu mais gostava na fotografia: poder contar histórias. Mais do que fazer “fotografias bonitas”, fazer fotografias ricas em conteúdo, que mexem com as pessoas. Poder mostrar ao mundo situações e ajudar a ter mais conhecimento e informação sobre variados temas da vida.

Até aos dias de hoje, sigo a mesma filosofia no que refere à fotografia documental.
Podem ver aqui o resultado final deste projecto: IDENTIDADE

 

 

P.S – Escusado será dizer que nos tornamos bons amigos.
O Vítor Fernandes faleceu em Julho de 2021 e com ele uma das Drag Queens mais icónicas do Porto. Contudo, a sua vida e o seu trabalho abriram caminho a novas Drag Queens, à aceitação e a um melhor conhecimento sobre um tema que, quando ele começou, ainda era tabu.

As fotógrafas, tornaram-se uma referência para mim e na minha opinião, têm um trabalho que vale muito a pena ser visto.

Diane Arbus, que fotografava americanos inseridos num determinado grupo, uma comunidade, travestis, velhos, nudistas, mascarados, actores, “freeks”.
Com isso Arbus abre um curioso diálogo entre aparência e identidade, ilusão e crença, teatro e realidade.
Uma pessoa é o que ela parece ser? Sua imagem funciona como um carimbo de identidade? Ou existe um “para além”da forma?

Nan Goldin conhecida por fazer o retrato social das minorias sexuais dos anos 1980 e 1990.
O seu interesse pela fotografia surgiu aquando da morte da irmã.

“‘’Eu comecei a tirar fotos devido ao suicídio da minha irmã. Eu a perdi e tornei-me obsessiva com a ideia de nunca mais perder a lembrança de alguém.”

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